De onde vieram esses costumes do nosso São João? Aliás, sabe quem foi São João e por que se celebra no dia 24? Agora saberá

João mora e trabalha em São Paulo. O departamento de recursos humanos da empresa em que João trabalha não consegue entender um fenômeno que ocorre com seus funcionários nordestinos. Eles querem todos tirar férias no mês de junho. Como assim? Junho? Enquanto os outros se estapeiam por dezembro e janeiro, João e seus colegas querem folgar justo no inverno?

Quadrilha - com origem em cortes europeias, aqui foi reinventada e adotada por camadas populares
Quadrilha – com origem em cortes europeias, aqui foi reinventada e adotada por camadas populares

Um dia, o chefe de João não aguentou de curiosidade e perguntou a ele: “João, porque diabos você e os outros ‘paraíbas’ querem tirar férias em junho?”. João respondeu na lata: “Oxe! Pra passar o São João com a família”. Piorou. O chefe criava outra dúvida. “O que significa passar o São João com a família?”.

Mas será que só os sulistas desconhecem as festas juninas? O fato é que há muitos outros porquês sobre o São João que nem mesmo nós,  nordestinos, entendemos. Por que o São João é tão forte no Nordeste? Por que é em junho? Por que dançamos forró? Por que tomamos licor? Por que acendemos fogueira? Por que quadrilha? O CORREIO preparou um guia para você entender tudo da festa.

Por que fogueira?

Maria tinha uma prima chamada Isabel, esposa de Zacarias. Isabel engravidou e teve um filho chamado João — João Batista. Pra comemorar seu nascimento, a família fez uma fogueira. “Mas a questão não é a manifestação cultural em si, e sim como ela chega em determinados lugares e contextos locais e regionais. Quando o São João chega aqui, ele ganha as especificidades regionais”, tanto que, com o passar do tempo, a fogueira ganhou contornos místicos e supersticiosos. As pessoas acreditavam que não acender a fogueira era pecado.

Fogueira - celebra João Batista
Fogueira – celebra João Batista

Hoje, muita gente acende a fogueira pra simplesmente assar um milho verde, reunir a família, dançar um forrozinho. “Porque eu ainda vejo tanta fogueira? Porque prevalece a dimensão profana. Determinadas coisas rompem o tempo porque são ressignificadas”.

Por que São João? 

A pergunta é: porque a festa nessa dimensão não acontece com outros santos? Pela importância tanto religiosa quanto popular de São João. Na verdade, quando se trata de festejos juninos, estamos falando de três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro.

Mas, a São João tem duas particularidades. Primeiro porque estamos falando do João primo de Jesus, que anunciou sua chegada e que o batizou nas águas do Rio Jordão.

“Ele foi considerado o maior de todos os profetas. Inclusive, Jesus disse que, entre os nascidos de uma mulher, ninguém foi maior do que João”.  O outro detalhe é que São João é o único santo do qual  se comemora o nascimento. Nas outras datas de santos, são prestadas homenagens pela morte. Por isso, São João é tempo de comemoração.

“Você já observou em alguns quadros aqui no Nordeste a imagem de São João? É a imagem dele menino. Os outros são adultos. Até nas composições estéticas você vê São João menino. Essa é uma imagem ‘nordestinizada’, você observa que ele tem um cabelo encaracolado, a cabeça arredondada e segura um carneirinho”.

Por que em junho? 

Exatamente pelas coincidências de datas. Tanto as colheitas na Europa quanto o nascimento de João e morte de Santo Antônio e São Pedro são em junho. “O solstício de Verão na Europa é quando? Em junho. A festa das colheitas? Junho. A Igreja Católica instituiu o dia de nascimento de João Batista como 24 de junho.

Por que no Nordeste?

Pela forte religiosidade popular dessa região. Antes dos festejos ganharem esse contorno, já havia o culto aos santos. O que ocorreu de novo? Vieram da Europa pra cá influências das festas juninas de lá. Influências essas que se fortalecem no século XVIII.

“A Europa colonizadora trouxe pra cá o catolicismo oficial, romanizado. Mas no século XVIII chegam outras influências, inclusive festivas. Chegaram e ganharam a nossa cara”, contextualiza Janio de Castro. Acontece que essas influências chegaram  em várias partes do Brasil. Só que no Nordeste encontraram uma forte religiosidade popular.

Estou dizendo que é fraca em outras regiões? Não. Mas nada se compara ao que se tem aqui. Aqui temos o fenômeno das grandes romarias. O catolicismo popular é muito forte aqui. E os santos do ciclo junino são muuuuuito populares. Tem gente que comemora São João no Centro-Oeste ou em Minas? Tem. Mas nada igual a isso aqui. Tanto na dimensão sagrada quanto profana. Mesmo na dimensão religiosa, não tem a mesma  dimensão.

Por que milho e amendoim?

Se fala muito dos três santos juninos, mas tem um quarto santo que vem antes deles: São José, homenageado no dia 19 de março. No dia de São José,  o nordestino espera a chuva pra plantar o milho e o amendoim. Três meses dali pra frente, em junho, ele colhe o que plantou.

Milho - semeado em março
Milho – semeado em março

Independente de festa junina, o nordestino sempre plantou milho e amendoim no mês de março e colheu no mês de junho para comercializar. “Como nessa época de junho é época da colheita do milho, existe uma culinária extensa, principalmente de doces.

O milho é um cereal da América e os incas, os maias, todos os povos há sete, oito mil anos, não só produziam de uma forma organizada a agricultura de milho, como usavam o milho dentro de sistemas alimentares. Para esses povos fundamentais das Américas, o milho representa também o ouro e o sol. A fogueira é o sol. O milho é o sol e é o ouro.

Por que forró? 

A expressão “forró” envolve outra polêmica. Alguns dizem que se refere à expressão “for all” (para todos, em inglês), originária dos ingleses que vieram para o Brasil construir as ferrovias e conheceram as festas animadas com o novo ritmo.

Forró - ritmo popular nordestino tomou naturalmente conta da festa
Forró – ritmo popular nordestino tomou naturalmente conta da festa

Outros garantem que se trata de uma corruptela da palavra “forrobodó”. Mas por que predomina o gênero durante o São João? Porque ele é genuinamente nordestino. Onde é que mais se comemora o São João? No Nordeste. Então, uma coisa está ligada a outra.

O forró tradicional, foi difundido a partir dos anos 50. Luiz Gonzaga teve um papel importante nisso. “Na década de 50, o São João estava arraigado no imaginário das pessoas. Aí aparece esse pessoal cantando esse Nordeste festivo. O jeito de ser do nordestino tinha que aparecer na grande festa do Nordeste”.

Por que ir de casa em casa? 

“São João passou por aqui?”. A pergunta ainda hoje é anunciada nas portas das casas durante as festas juninas. Se a resposta for “sim”, a vizinhança entra para comer, tomar licor e, se for o caso, dança um forrozinho. A origem disso? “Em tudo aquilo que se liga à família, a gente pode ver uma conotação religiosa. Eu mesmo sou do interior, sou de Vitória da Conquista, e na minha rua os vizinhos se visitavam. Batiam na porta com alegria, dizendo ‘São João passou por aqui’.

E trocavam ali os licores e tudo. E isso ainda existe, isso é bom. E há um sentido religioso. Se formos olhar, a visita de Maria a Isabel. Quando Isabel abriu a porta, ela ficou tão feliz que o menino João exultou de alegria. E certamente Maria foi lá se confraternizar”.

As pessoas também passaram a aproveitar as festas juninas para visitar os parentes que às vezes não tinham tempo pra ver o ano todo.

“Hoje diminuiu porque além da casa e da rua, tem a praça. Repare que ‘São João de casa em casa’ mudou o dia. É mais dia 24, porque dia 23 o pessoal está se arrumando em casa pra ir pra praça. No dia seguinte,  já começa a ir nas casas. O São João foi reinventado em vários espaços”.

Seja lá como for, essa tal passagem de São João sempre rende boas histórias – e, em alguns casos, até certos traumas. Que o diga o artista plástico Carybé. Em algum momento pós-1938, mas logo na estreia dele no São João,  Carybé foi experimentar a tradição. E, de quebra, levou a pior consequência dela. “Ele teve a pior ressaca da vida, que até o pé de jenipapo não conseguia olhar durante um bom tempo. Nunca mais ele tomou licor de jenipapo”.

Por que bandeirola? 

As bandeirolas têm origem no sagrado, nas festas para os santos. Elas eram colocadas nos arredores das igrejas para as festas religiosas. Independente de qual época fosse, a bandeirola sempre enfeitou a parte externa dos templos católicos.

Bandeirolas - colocadas ao lado das igrejas para as festas religiosas
Bandeirolas – colocadas ao lado das igrejas para as festas religiosas

No caso dos festejos juninos, as bandeirolas já eram colocadas para os três santos de uma vez. Com o passar do tempo, deixou de ser religiosa e passou a ser uma composição estética típica do período. Mas a origem dela é no entorno da igreja. Aí ganhou as festas de rua e da praça pública.

Por que quadrilha? 

Segundo alguns pesquisadores, a quadrilha é uma dança europeia de influência austríaca ou francesa, por isso as palavras “anarriê”, “alavantú” e “balancê” se integram às apresentações. Mas, o mais curioso é a reivenção da dança pelos nordestinos. A quadrilha chega como algo chique, da corte francesa, e aqui caiu nas camadas populares.

“As quadrilhas francesas considerariam o chapéu de palha um absurdo, por exemplo. Chapéu de palha para dançar uma dança que era da corte? Que maluquice é essa?”, questiona o professor Janio de Castro. “Aqui as pessoas colocam trapos na roupas para dizer que é algo típico da roça, das camadas mais pobres. Quer dizer, isso é uma forma de reinventar, inclusive esteticamente, uma dança”.

As palavras passam a ser aportuguesadas. Alguns passos como “olha a cobra!” são colocados. Tem também o passo  “caminho da roça”. “Tem alguma região da  França em que se dance quadrilha, pra eu conhecer a quadrilha original? É complicado. Porque o conceito de original é extremamente complicado. Porque a quadrilha aqui já é fruto de várias contaminações e influências. Você não vai encontrar uma quadrilha como a nossa na Europa, apesar de a origem ter sido europeia”.

Por que fogos de artifício? 

Grande parte de muitos fogos de artifício tem origem na China e na Europa. Alguns afirmam que eles são usados no São João porque também anunciaram o nascimento de João Batista.

“É pra anunciar a festa em si”. No caso dos balões, eram tocados também como um símbolo anunciador. Era hora de mostrar que chegaram os festejos juninos. “No novenário, as pessoas tocam em homenagem ao santo. Uma dimensão lúdico-religiosa-brincante-explosiva da festa”.

Por Alexandre Lyrio, Clarissa Pacheco e Thais Borges

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